quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Portugal Gastronómico #74 - Matosinhos

(Fonte: Wikipedia)
(Fonte: viajar.clix.pt)

Produtos DOP e IGP:

Nenhum

Bebidas:

Vinhos

Não existe produção

Outras

Não existe produção

Produção concelhia:

Conservas
Pescado e marisco

Produtores / Fabricantes:

Conservas Ramirez, a mais antiga marca portuguesa
Ramirez & Cª (Filhos) S.A.
Rua Óscar da Silva, 1683 - Leça da Palmeira - 4451-953 Matosinhos
Telf. 00 351 22 999 7878 ; e-mail: ramirez@ramirez.pt ; http://www.ramirez.pt/









Conservas Pinhais
A única unidade do sector em Portugal que mantém uma produção artesanal e onde está previsto ser instalado o futuro Museu Vivo da Indústria Conserveira. Vale a pena a visita e a compra dos produtos no local, muito mais baratos do que nas (poucas) lojas gourmet onde se encontram à venda.
Pinhais & C Lda
Avenida Meneres, 7004450 Matosinhos
Telf. 229 380 042 ‎


Pratos típicos característicos do concelho:

Pescado e marisco


Doçaria:

Leite creme

Restaurantes referenciados:

"Matosinhos é um dos maiores clusters europeus de restaurantes por m2, reunindo uma oferta sem paralelo. A sua gastronomia é já considerada um dos principais produtos turísticos do concelho. Em qualquer restaurante o linguado, o goraz, o cherne, o robalo, o tamboril, a pescada, o atum, o espadarte, o polvo, ou o venerável bacalhau, constam das ementas e protagonizam cozinhados criativos e deliciosos.


Contudo, é na grelha que o paladar dos nossos visitantes mais os aprecia, onde se inclui o carapau e a sempre popular sardinha. Os mariscos, requintadamente preparados, simples, grelhados ou na cataplana, são outras referências da restauração matosinhense, há-os para todos os gostos: lagosta, lavagante, camarão da costa, percebes, entre muitas outras espécies. Poderá obter mais informações, através do site: www.omaramesa.com.


Conhecida como a sala de jantar da Área Metropolitana do Porto, conta com mais de 600 restaurantes dispersos por todo o município. A chancela Mar à Mesa “RESTAURANTE 100%” é, de entre os serviços que esta autarquia presta aos seus munícipes, um dos de superior relevância – pois revela ao mercado em geral, a qualidade, o sucesso e sabores da gastronomia de Matosinhos." (Câmara Municipal de Matosinhos;Divisão de Promoção da Economia Local e Turismo)


Al Forno Leça Palmeira Rua Santa Catarina, 249 229387565
A Casinha Perafita Travessa Gandarra, 111 229954224
A Chalandra Matosinhos Avª. Serpa Pinto, 322 229375553
A Cozinha da Maria Leça Palmeira Rua Fresca, 187 229955535
A Recoleta Matosinhos Rua do Sul, 51 229381016
Brasa Douro Leça Palmeira Rua Óscar da Silva, 1109 229957181
Cais 51 Matosinhos Rua Gago Coutinho, 51 229370976
Casa de Chá da Boa Nova Leça Palmeira Boa Nova 229951785
D'Oliva Matosinhos Rua Brito e Cunha, 354 229351005
Don Juan Leça Palmeira Rua Helena Vieira da Silva, 320, lj2 229965047
Fuzelhas Leça Palmeira Avª. Da Liberdade, Praia de Fuzelhas 229952410
Great Matosinhos Estrada Exterior da Circunvalação, 15960 220025274
Lage do Senhor do Padrão Matosinhos Rua herois de França, 516 229384807
Les Amis Leça Palmeira Rua António Carvalho, 230 229965772
Mar na Brasa Matosinhos Avª. Serpa Pinto, 464 R/Ch 229371090
Marisqueira de Matosinhos Matosinhos Rua Roberto Ivens, 717 229381763
Marisqueira Marujo Matosinhos Rua Tomás Ribeiro, 284 229383732
Mauritânia Real Matosinhos Rua Ló Ferreira, 239 229371363
Marizé Perafita Rua Almeiriga norte, 2955 229950301
O Alves Leça Palmeira Avª. Dos Combatentes da Grande Guerra, 124 229954226
O António Perafita Rua Óscar da Silva, 2402 229960741
O Arquinho do Castelo Leça Palmeira Rua de Fuzelhas, 102 229942339
O Bem Arranjadinho Leça Palmeira Travessa do Matinho, 2 229952506
O Casarão do Castelo Leça Palmeira Rua Santa Catarina, 74 229951676
O Chanquinhas Leça Palmeira Rua de santana, 243 229957884
O Fernando Matosinhos Rua Herois de França, 527 229375905
O Gaveto Matosinhos Avª. Serpa Pinto, 761 R/Ch 229378796
O Manel Matosinhos Avª. Serpa Pinto, 424 229350477
O Valentim Matosinhos Rua Herois de França, 263 229388015
O Xarroco Matosinhos Rua Herois de França, 507 229381649
Olhinhos do Polvo Matosinhos Rua Herois de França, 601 220994381
Os Lúsiadas Matosinhos Rua Tomás Ribeiro, 257 229378242
Os Rapazes Leça Palmeira Largo do Castelo, 39 229953380
Pecadosinhos Matosinhos Rua Tomás Ribeiro, 248 229371610
Pedra Alta - Lavra Lavra Rua Custódio Pereira Ramos, 903/1035 229957890
Palato Matosinhos Rua Herois de França, 487 R/Ch
Quarenta e 4 Matosinhos Rua Roberto Ivens, 44 229363706
S. Valentim Matosinhos Rua Herois de França, 335 229379406
Sarrabulho Leça Palmeira Avª Dr. Fernando Aroso, 242 229953671
Segundacasa Matosinhos Avª Serpa Pinto, 124/129 229379627
Tito I Matosinhos Rua Herois de França, 279 229380692
Tito II Matosinhos Rua Herois de França, 321 229381092
Trás D' Orelha Matosinhos Rua Herois de França, 549 229371920
Veleiros Perafita Rua de Almeiriga, 2520 229958531
Viveiros da Mauritânea Leça Palmeira Avª. Dos Combatentes da Grande Guerra, 50/86
Visconde Matosinhos Rua Herois de França, 241 229370751
5 Oceanos Matosinhos Rua Herois de França, 689 229372941


Eventos de teor gastronómico:

Feira do Fumeiro
Penúltimo fim-de-semana anterior ao Carnaval

Mercado da Castanha
Fim-de-semana anterior ao 11 de Novembro)

Fins-de-semana gastronómicos
(datas variam anualmente)

Festa do Mar


De forma a promover e desenvolver a gastronomia, associou-se a cozinha a um programa de animação diversificado, estabelecendo parcerias com os restaurantes das principais artérias das freguesias de Matosinhos e Leça da Palmeira, dando origem ao projecto "Festa do Mar”.


O evento, que teve a sua estreia no ano de 2006, resulta de uma parceria da Câmara Municipal de Matosinhos e o sector privado da restauração, caracterizando-se pela montagem de esplanadas, devidamente identificadas com o nome da iniciativa "Festa do Mar" e o nome do restaurante aderente. Estas esplanadas, características da iniciativa pelo seu design uniforme, são dotadas de mesas e cadeiras, iluminação e apontamentos de decoração, dando à rua uma imagem consistente e facilmente identificável.


A animação da Festa do Mar, ponto fulcral deste evento, decorre no espaço exterior e interior dos restaurantes aderentes, e é protagonizada por diversos grupos musicais escolhidos criteriosamente para proporcionarem uma animação diversificada, distinta e inclusiva. Procurou-se variar e promover artistas nacionais e em fase de lançamento como é o caso das tunas académicas, grupos de música tradicional portuguesa, trios de jazz, animação circense, entre outros.


Assim, todas as sextas e sábados dos meses de Verão (Julho a Outubro), os comensais podem desfrutar de uma refeição de qualidade, acompanhada de momentos de animação a não perder. Estes grupos, as esplanadas e os pratos típicos, criam um ambiente de festa, tornando a "Festa do Mar" um evento muito procurado e apreciado não só pelas gentes da terra mas também por visitantes nacionais e internacionais. O reflexo mais concreto do crescente sucesso deste evento é o número de visitantes e restaurantes envolvidos, sendo este número cada edição mais elevado, estando actualmente 47 estabelecimentos envolvidos e 293.000 visitantes.(Fonte: http://www.omaramesa.com)


Agradecimentos:
Câmara Municipal de Matosinhos


Bibliografia:
Produtos Tradicionais Portugueses, Ed. M.A.D.R.P, 2001
Guia de Compras-produtos Tradicionais 2011, Ed. QUALIFICA/Publiagro
Vinhos e Aguardentes de Portugal, Anuário 2009, Ed. Instituto da Vinha e do Vinho I.P.
Boa Cama, Boa Mesa, 2011, Ed. Expresso
Guia Restaurantes e Vinhos de Portugal, 2008, Ed. Media Capital Edições

EM CONSTRUÇÃO - O post irá sendo actualizado à medida que novas informações sejam obtidas.
Achegas e comentários, bem vindos como sempre

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Uma aula de Bertílio Gomes


Naquele que foi, segundo a organização, o primeiro show cooking realizado em Portugal exclusivamente com produtos provenientes de agricultura biológica (e peixe comercializado de acordo com critérios de "comércio justo", acrescento eu), no mercado de Santa Clara, novas instalações do Centro das Artes Culinárias



o chef Bertílio Gomes ensinou como, com técnicas usuais, se conseguem duas composições de fazer água na boca. Uma apresentação tranquila, bem disposta, com a descontracção de quem sabe o que faz e está de bem com o mundo. De quem assim está só pode sair comida do alto.

Alto astral.

Segundo me pareceu (porque cheguei atrasado),
 primeiro faz-se um refogado com cebola e azeite, semi-cozinhando-se o tomate.
Corta-se a batata doce e leva-se ao forno com a tomatada.
Escalfaram-se os ovos um a um, em água com um pouco de vinagre.
Cozidos só ao ponto de endurecerem a clara e deixar a gema líquida
(cerca de 3 minutos) e colocados imediatamente em água com gelo
para parar a cozedura.
As telhas de toucinho.
"Fritas" entre duas folhas de papel vegetal, numa frigideira, com o peso do tacho a impedir que encaracolem. 




Aqui está a entrada: ovo escalfado sobre batata doce e telha de toucinho.

Prato principal.
Raia de Sesimbra...

... temperada com flor de sal...

... e as algas de três tipos: nori, hum-hum e tal e tal...
Cozem-se as algas em água. Reserva-se a água da cozedura para o arroz e faz-se uma cama de algas sobre a qual
irá cozer a raia, da qual se retirou a cartilagem.
Método: aquecem-se as algas até ponto de fervura, coloca-se o peixe, tapa-se e desliga-se o lume. A raia deve cozer a temperaturas à volta dos 45ºC; a partir daí a sua estrutura começa a desagregar-se, perdendo textura.
Tempo de cozedura? Hum, 15 minutos?
Refogado de cebola, o arroz passado sobre ele para ganhar sabor,
a água quente de cozer as algas, um arroz perto do malandrinho.
O toque final é dado por este suco de alga
E aqui está. A raia desfiada sobre o arroz, uma pitada de cebolinho e a cor do suco de alga.
Mar, mar e mar.

domingo, 27 de novembro de 2011

Restaurante Roda dos Sabores, Lisboa

Não vou escrever uma apreciação definitiva. Declaro-me influenciado pelo que escreveu o tenente-coronel Newnham-Davis (não é fantástico este pendor vitoriano por nomes compostos?) crítico do início do século finado (daqui a poucos anos, usar esta expressão colocar-me-à definitivamente na prateleira do passado), autor do guia da Europa gourmet a que me referi há uns dias: não é justo para um restaurante - dizia ele - condená-lo após uma primeira visita nem justo para si própio fazer uma segunda...

Humor inglês à parte, há restaurantes que me deixam assim - a pensar que a menos boa impressão poderá ser fruto não só de uma preparação ocasionalmente menos conseguida mas de um factor pessoal temporário e, portanto, a necessitar de uma segunda confirmação. O problema desta ocorrer é que, enquanto a primeira impressão dura, me é difícil encontrar a disponibilidade para lá voltar. O que fazer então com as palavras e as imagens, com a experiência tida, com a vontade de comunicar o acontecido, experimentado e vivido?

Volto assim ao começo: esta não é uma apreciação definitiva. Mas é um registo.

Dia de semana, restaurante pouco cheio de início, indo-se compondo com o avançar da noite, no que me parece uma crescente tendência de "espanholização" dos hábitos de cearização do jantar. Primeiro andar do edifício do complexo da antiga fábrica das sedas na rua da Escola Politécnica, espaço interessante que aparenta ser reaproveitamento de antiga habitação, bem remodelado, decoração interessante, eye-catching (if you pardon my french).



Serviço correcto.

Lista com algumas propostas tentadoras. Carta de vinhos curta e com preços exagerados.

Couvert poucochinho, pão a começar a ficar fora de tempo.

Pratos visualmente bem conseguidos, bem pensados. Resultado nem por isso, decepcionante mesmo face à expectativa criada pela boa impressão visual.

Entrada: Fígados de aves com fatias de pera
Os fígados, mi-cuit (para usar uma expressão próxima), de menos para o meu gosto, tornando-se penosos.
A pera ajudou a cortar o sabor excessivo mas foi insuficiente.

Polvo em três texturas, sonhos, grelhado e tártaro com migas de couve e feijão
As migas demasiado moles, pouco texturadas, o grelhado duro, o sonho - um sonho! - o tártaro desenxaibido.
Uma apresentação bonita que não apagou o desgosto da degustação (apesar do sonho)

Magret de pato sobre puré de batata doce, pack-choi e romã
O pato esteve bem, o puré um pouco indefinido.

Apesar de termos declinado as sobremesas, veio como tira-gosto para o café,
esta mimosice de mini-pasteis de nata e gomos de morango.
Nota alta para o cuidado da apresentação


Tenho pena. Gostava de me ter sentido bem.

Sem nota, pelo escrito acima. Preço: >20€ ; <40€

Rota das Sedas Restaurante
Chef António Amorim (com uma mãozinha de Teresa Arriaga nas sobremesas)
Rua da Escola Politécnica, 231
1250-101 LISBOA

(+351) 213 874 472
(+351) 964 376 322

sábado, 26 de novembro de 2011

Banco de Imagens

Mais uns achados na Quinta do Poial. Agora mais rarefeitos que o frio se instala e a agricultura biológica respeita os ritmos e os ditames da natureza.


Ver "A Maçã Biológica - Qualidade Alimentar e Ambiental"
aqui





sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Michelin 2012

É inevitável. Apesar dos muitos reparos que chegam de todos os lados, o anúncio anual das estrelas atribuídas pelo Guide Michelin é esperado com expectativa. Têm estas em comum com os Óscares e o Nobel da Literatura uma longa lista de injustiças - omissões e entusiasmos que a posteridade não veio a confirmar - e a capacidade de fazer e desfazer reputações - o que, num negócio de milhões como é o da alta cozinha, marca quase sempre a fronteira entre o sucesso e a bancarrota.

Não me vou alongar muito sobre as estrelas portuguesas deste anos porque outros (o Vicente, o Duarte Galvão) já o fizeram com muito mais propriedade e presença. Deixo, para memória futura, o registo e os parabéns aos agraciados.

Prometo visitas, ita crisis placet que é como quem diz, assim me não atinja a crise com muita força.

Restaurante Largo do Paço
**
  • “Ocean” (Porches) , Chef Hans Neuner [site]
  • “Vila Joya” (Albufeira), Ched Dieter Koshina [site, infelizmente só em inglês]

*
  • ”Feitoria” (Lisboa), Chef José Cordeiro, [site]
  • "Tavares"(Lisboa),  Chef Aimée Barroyer [site]
  • "Willie's" (Quarteira), Chef Willie  [site
  • "São Gabriel" (Almancil), Chef Torsten Schulz [site]
  • "Henrique Leis" (Almancil), Chef Henrique Leis  [site]
  • "Il Gallo d'Oro"(Funchal), Chef Benoît Sinthon [site]
  • "Arcadas da Capela" (Coimbra), Chef Albano Lourenço [site]
  • "Largo do Paço" (Amarante), Chef Vitor Matos [site]
  • "Fortaleza do Guincho" (Cascais), Chef Vincent Farges [site]
  • “The Yeatman” (Vila Nova de Gaia), Chef Ricardo Costa [site]

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Fotomercearia Criativa

Sábado, o foto-profissional Manuel Ribeiro, a Mercearia Criativa, um grupo de amadores profissionais empenhados em apreender mais uns quantos tricks of the trade, a simpatia dos anfitriões e dos modelos que no fim se deixaram degustar para alegria de todos os presentes!!!

Modelo nº. 1: Picles de batata-doce
("cheguem-se um bocadinho para cá, não... para lá talvez... um sorriso, fatias mais juntas sff... parece que já...
uma pitada de cravinho para o contraste... que tal uma caldazinha para realçar o brilho?..."

Modelo nº.2 - Muxama 

Modelo nº.3 - Oregãos a aromatizar queijo gratinado

Modelo nº.4 - Uns pimentos laranja divinais de ficarmos malcriados por os querer todos para nós...

Entretanto, nos intervalos, olhares gulosos também para as prateleiras...
... à procura dos melhores instantâneos, claro.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Lisboa, 1903

The Gourmet's Guide to Europe, é o segundo livro de crítica gastronómica de Nathaniel Newnham-Davis, food writer inglês entre finais do século XIX e as duas primeiras décadas do seguinte. Editado 1903 em colaboração com Algernon Bastard, viria a ser reeditado duas vezes (1908, 1911) sendo igualmente editado nos Estados Unidos em 1908, com uma entusiasmada crítica no The New York Times ("uma verdadeira obra-prima no seu género").

Numa altura em que a  gourmandise não era nem um fim em si nem uma especialidade da esmagadora maioria dos viajantes/turistas, mais interessados em seguir os conselhos culturais de Baedeker's e afins, o livro não parece ter atraído muitos leitores (de pouco lucro se queixa o autor no prefácio da segunda edição) tendo, no entanto, contribuído para a boa ou má imagem que as cozinhas e restaurantes das várias cidades e países abordados apresentaram aos seus contemporâneos. Com a Península Ibérica não é meigo, começando por classificar a cozinha espanhola, por interposto francês, como "pior ainda do que a inglesa que é a que lhe vem a seguir", queixando-se do excesso de alho e da má qualidade do azeite e terminando por indicar que a Espanha "não é um bom território de caça para um gourmet". Quanto a Portugal, uma referência a Lisboa como único local que valerá a pena conhecer. Da tipicidade da cozinha, nada refere, das suas características ainda menos. O texto torna-se mais interessante pela indicação dos hábitos dos frequentadores do Tavares - ah, os privados! - e pela subserviência à cozinha francesa que parece hábito das casas mais luxuosas (o Bragança, no caso). Pela geografia dos locais, em 1903, para um inglês, a culinária portuguesa resumia-se ao eixo Baixa-Chiado. Nada tão longe e, simultaneamente, tão perto da verdade.



The
Gourmet’s Guide
To Europe
BY
LIEUT.-COL. NEWNHAM-DAVIS
AND
ALGERNON BASTARD
EDITED BY THE FORMER
1903


"(...)
Lisboa é a única cidade de Portugal onde a cozinha merece ser digna de atenção.

(...)

Há bons hotéis em Lisboa onde pernoitar e existem restaurantes em quantidade, mas para experimentar os cozinhados de alguns deles, um gourmet deve elevar a educação do seu gosto ou melhor, deve descer o seu gosto até ao standart português.

No Bragança, um pequeno clube de solteirões britânicos tem o hábito de cear em conjunto, encomendando a ementa previamente e isto é um justo exemplo do que uma hotelaria corrente mas confortável pode produzir quando quer:

Madeira Riche.
Queues de Boeuf. Crème Clamart. Petits Soufflés Desir.
Johannisberger (Claus).
Saumon Sauce Genèvoise. Selle de Présalé à la Montpensier. Poularde à l’Ambassadrice.
Château Giscours. 
Pain de foies gras en Bellevue. Punch au Kirsch. Asperges Sauce Mousseuse.
George Goulet, 1892 Vintage.
Pintades Truffées. Salade Japonaise. Timbales à la Lyon d’Or.
Porto 1815.
Glaces à la Américaine. Petits fours. Dessert.
Liqueurs. 
CAFÉ.

Hotel Bragança
[Fonte:  Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian ; Autoria - Estúdios Mário Novais, s/data]

Bons menus ao pequeno-almoço e jantar são servidos diariamente às 11 e às 19, sendo o preço moderado, entre 800 e 1200 réis respectivamente. (É bom lembrar que o câmbio varia consideravelmente, sendo assim difícil dar o valor equivalente em libras, mas 5500-6000 réis corresponderão a 1 libra esterlina). O proprietário é M. Sasetti, correctamente apoiado pelo seu gerente e pelo responsável de sala chamado Celestino, uma pessoa extremamente útil em todos os sentidos.

Vinhos, destilados e licores de origem estrangeira são caros no Bragança, como o são em qualquer lugar, devido às altas taxas alfandegárias; mas os vinhos locais, dentre eles Collares, Cadafaes, Collares Branco, Serradayres branco e tinto, etc. são bons e baratos vinhos de mesa.

O restaurante seguinte no que diz respeito a conforto, limpeza e cozinha é o Café Tavares, situado na Rua Largo de São Roque. É essencialmente um café restaurante (?) e está aberto do pequeno-almoço até às três ou quatro da manhã seguinte. O Tavares é o principal ponto de encontro dos jovens turcos, tanto portugueses como estrangeiros, principalmente depois do encerramento dos teatros e da ópera quando a vontade de jantar é grande. A festa dura da meia-noite até altas horas, especialmente nos cabinets particuliers, que são preferencialmente acedidos a partir da entrada das traseiras, situada na Rua das Gáveas. Ao almoço e jantar são servidos muito bons menus a um preço moderado que varia entre 600 e 800 reis. O proprietário e gerente é o Sr. Caldeira, muito atencioso com os clientes.

Restaurante Tavares, antes e depois das obras de remodelação de 1903
(após as quais passaria a ser conhecido pelo "Tavares Rico")
[Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal ; Autoria Eduardo Portugal (direita)]

Restaurante Tavares - Entrada das traseiras
[Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal ; Autor desconhecido]
Restaurante Tavares, um dos gabinetes reservados
[Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal ; Autor desconhecido]
Se algum visitante de Lisboa estiver ansioso por experimentar a cozinha portuguesa, não poderá fazer melhor do que visitar o Leão d'Ouro, situado na Rua do Príncipe, ao lado da Estação Central de Caminho de Ferro. Este foi, e em grande medida ainda é, o local de encontro de actores, autores e profissionais. A comida é boa e muito barata, servida à carta. A comida portuguesa pode ser considerada como "altamente temperada", mas ainda assim existem muito bons pratos, sendo uma especialidade da casa a Sopa de Camarão, um bisque de camarões que, de modo nenhum, deve ser ignorada. No que respeita aos vinhos é recomendável beber os nacionais. (...)"

Cervejaria Leão d'Ouro, princípio do século XX
[Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal ; Autor desconhecido]

"O Grupo do Leão", reunido na Cervejaria Leão d'Ouro
Óleo sobre tela de Columbano Bordalon Pinheiro, 1885, Museu do Chiado
[Fonte: Wikipedia]

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Na culinária, nada se perde nada se cria...

Qual Guilherme de Baskerville perco-me nos meandros desta biblioteca virtual. Subo e desço caminhos, percorro empoeiradas prateleiras, descubro uma obra, folheio uma surpresa. Muitas vezes - as mais das vezes - esqueço-me do propósito inicial, dos passos a dar, da porta de entrada. Dou comigo absorto, abstracto, a reflectir sobre uma frase, uma nova informação, todo um mundo que, até então, se desenvolvia sem eu o conhecer.

Por exemplo: procurando descobrir um misterioso "Um Tratado da Cozinha Portuguesa do século XV" que acabou por ser o título dado pela edição brasileira, a partir do original, do "Livro de Cozinha da Infanta D. Maria", descubro Le Vivendier ("aquele que procura o alimento"), composto entre 1420 e 1440 na Flandres. Manuscrito encontrado em Kassel, num codex que continha textos do médico Jacques Despars, físico de Filipe o Bom, duque da Borgonha e do rei Charles VII. Filipe o Bom que tive forte relação com a corte portuguesa, dado o seu matrimónio com a Infanta Isabel de Portugal.


Poder-se-ão encontrar relações entre as cozinhas dos dois territórios, a partir da análise dos dois manuscritos?

Dizem os eruditos que, apesar da posse do manuscrito ser atribuída a D. Maria por, pertencendo ao espólio da família Farnèse, estar escrito em português (a infanta foi esposa de Alessandro Farnèse, terceiro Duque de Parma e Piacenze)  e desta ter vivido entre 1538 e 1577, as receitas lhe serão anteriores, tendo sido escritas nos finais do século precedente. Muitos anos de diferença entre um e outro livro, ainda que as inúmeras pontes que se estabeleceram ao longo do século XV entre Flandres e Portugal (e a Flandres fazia parte do ducado da Borgonha) permitam admitir a possibilidade de "contágio" de alguns modos culinários.

Falo de cor.

E no entanto... Leia-se esta receita:

Pour faire un chaudel sur oulz pochiés. Prenez persin hachié menu et refait en bonne eaue et vergus ; faictez boulir ensamble. Mettez vos soupes en plas et oes et vostre brouet par dessus. ]154v[

(Para fazer um caldo sobre ovos escalfados. Pique salsa e ferva em água com suco de uva. Coloque as fatias de pão em pratos com os ovos e cubra com o caldo.)



Hum... Açorda alentejana, não?...